terça-feira, 20 de novembro de 2007

Gasta borralheira

Não me importo de admitir: por anos tomei Nescafé aos litros e até gostava. Mas no fim do mestrado, um café passado daqueles que parecem tintura de tão fortes tem o seu valor, como bem lembrou o meu maridão. E gentilmente resgatou a cafeteira que estava lááá no fundão do armário da cozinha. Perto de inutilidades como uma frigideira Bom Apetite (ou será que isso é panela? Ou caçarola? Sei lá, pra mim é tudo OCNI - Objeto de Cozinha Não-Identificado) , uma coisa muito estranha que minha mãe diz que é pra cozinhar vegetais no vapor e uma coisa que acho que é uma forma de bolo.
Cafeteira sobre a pia, pó de café comprado, e aí o querido me dá a aula de preparo de café em cafeteira.
Foi ótimo, e ele foi superdidático. Adorei principalmente a parte de abrir o pacote de café em pó embalado a vácuo (eu nunca tinha presenciado o fenômeno. Faz até psssst quando o ar entra, né?).
Entendi tudo. Ou achei que tinha. E meu mestre-barista saiu pra trabalhar. Ficamos eu e a cafeteira a funcionar.
Claro que daí pra frente deu tudo errado. Acabou a água e o troço ficou fazendo barulhos estranhos - gluks, gluks, gluks. Tive medo duma explosão (quando eu era criança uma panela de pressão com feijão preto explodiu na nossa cozinha. Ninguém se machucou, mas a mancha preta no teto impressionou que foi uma barbaridade. Fiquei meses mostrando aquilo pras amigas enquanto falava do perigo que as panelas de pressão representavam pra gente).
Gluks, gluks, gluks - a cafeteira continuava que parecia minha gata quando tá prestes a vomitar uma bola de pêlo melecada com Whiskas semi-digerido.
Desliguei a cafeteira, pra evitar problemas.
Peguei a jarra pra me servir. Mas ninguém tinha me dito que tinha que tirar aquele porta-coador de cima. Claro, qualquer anta se antenaria disso. Mas eu não. Afinal, não sou uma anta qualquer.
Eu faço mestrado em comunicação, não em culinária. Eu sei quem foi Bakhtin, mas o Monopol é um ilustre desconhecido. Sei de rizomas e bulbos nos termos do Deleuze, mas vade retro, aipim e beterraba.
Resultado: pó de café molhado na pia toda, no fogão, no chão, na minha mão, na estante. Uma meleca espraiada por tudo.
Mas que p... de borra, pensei eu, agora no papel, literalmente, de gasta borralheira (aos quase 43 seria delírio total eu me auto-classificar como gata).
Eca.
Intermináveis e sujos minutos depois, quando terminei de meio que limpar a cozinha emporcalhada, o café da jarra tinha esfriado.
E ainda faltava lavar o porta-coador. E pior: falta lavar o coador.
Que coisa mais cenozóica isso, lavar coador de café.
Deve ter uma lei proibindo a existência de coadores de café que tem que lavar, e obrigando todo mundo a usar coador de papel. Que nem a lei que obriga ao uso de cinto de segurança. Deviam fazer blitze organizadas pra coibir de uma vez o coador lavável. BOPEs invadindo as cozinhas pra combater os energúmenos. Capitães Nascimento diligentes empenhados em erradicar de vez esse mal da nossa sociedade.
Marido querido, avisa pro pessoal do escritório que amanhã vais chegar mais tarde porque a mentecapta da tua esposinha não sabe nem preparar um café passado mas adorou a idéia e não quer mais voltar pro Nescafé.

17 comentários:

ale disse...

Ha ha ha! Te recomendo uma cafeteira italiana, aquelas Bialetti, sabe? Acho que com umas duas aulas, tu pega o jeito, de tão fácil que é de usar. Bj.

venuss disse...

putz! tô rindo até agora. Da cena, da história, do post e da tua provável cara de puta que pariu enqto o troço acontecia.
Mas, se serve de consolo, e vê se não espalha: eu tb não sei usar cafeteira pq nunca tive uma.

Enio Luiz Vedovello disse...

Epa!!!!
Talvez seja hora de escrever um post-curso sobre como utilizar uma cafeteira para salvar as amigas de emergências como estas...
Modéstia às favas, meu café não é dos piores...

Maroto disse...

dois luxos de que me gabo: máquina de café expresso na cozinha e marido que leva café na cama. Aaaahhh, ser urubua às vêzes é bom pra caramba!

venuss disse...

Maroto, pra virar urubua precisa passar embaixo do arco-íris? Ou só nascendo de novo?

OS OLHOS ABERTOS disse...

hahahaha...
martina!

dependendo de marido pra fazer café!
nunca pensei..
:)

e continuo sem conseguir parar de rir também. muito bom!!

Maroto disse...

eva é a Martina?!? :o

venuss disse...

...E as máscaras caem...

Maroto, e as tuas penas vão cair um dia?

Eva disse...

MAROTO: Sim, sim, sim, Eva é a minha nada secreta identidade. Sou Martina Eva sim. Teu comentário me faz crer que nos conhecemos. Será? Andei vendo umas pistas no teu blog que me fazem pensar que sim. E preciso aprender contigo isso de fazer o marido levar café na cama todos os dias. Que luuuxo!
CAMILA: Bá, teu comentário revelou minha identidade civil. Olha, depois vou visitar teu blog. E já coloquei link pra ele no Calçolas, viu?
ENIO: manda a receita, que vou comprar uma Bialetti como recomenda a ALE.
E VENUSS, não saber fazer café não combina com tua sofisticação gastronômica, hein?

Maroto disse...

VENUSS, quem nasceu ruiva e linda não vira urubu nunca. O mundo é injusto mas não tanto, né?
Já o marido, é fácil. Basta convencê-lo que se você tiver que levantar sem tomar café vira uma bruxa que ele aprende.

Urubu Maroto é um entre vários avatares de um (ou mais) ser(es) super-ultra pós-moderno(s), cujas múltiplas personalidades pipocam em experimentações identitárias pela internet afora.

EVA, te conheço sim, mas não muito. Só de espiar meio de longe. Nem minha aluna você foi (pobrezinha, não sei como alguém vive com uma lacuna dessas na formação!)

venuss disse...

EVA: eu nunca usei cafeteira, mas eu sei passar café à moda antiga. Com coador e filtro de papel.
:)
Coisa bem a la Amélia.
Mas a gente quase não toma café aqui em casa.

MAROTO: "ruiva e linda" é uma grande gentileza da tua parte. Mas veja só, isso nunca me garantiu café na cama, acho que preciso mesmo virar urubu.

Enio Luiz Vedovello disse...

Venuss, fazer café na cafeteira é tão fácil quanto. Só não precisa ficar cuidando e colocando a água aos poucos (ou você ferve a água com o pó?), a máquina cuida disso enquanto você faz algo mais interessante...

venuss disse...

ENIO: eu imagino que usar a cafeteira seja uma das coisas mais simples do mundo. Mas é que aqui em casa a gente comprou esse brinquedinho pq quase não se toma café. E pras visitas a gente oferece chimarrão. Vai um mate?

venuss disse...

...eu quis dizer a gente NÃO comprou esse brinquedinho...

Enio Luiz Vedovello disse...

Achou que ia me pegar e dançou, Venuss. Topo o mate, sim. Embora ela não faça, minha esposa é gaúcha, eu já tomei muito mate e, ao contrário de boa parte dos não-gaúchos, eu não estranho o sabor.

Eu também não tenho cafeteira em casa, mas na drogaria onde eu trabalhava, o pessoal esperava eu chegar para pedir para passar o café, diziam que o meu era o melhor. Talvez porque não gosto de café fraco.

Enio Luiz Vedovello disse...

Mas um dia vou ter uma máquina de café expresso, como a Maroto.

adri disse...

Eva: teu maridinho me mandou o link, então, entrei...Amei!!!! é bom saber que não sou a única loira na parada que não consegue usar uma cafeteira...rsrsrs
adoro nescafé!!! se bem que passo café direto na xícara - depois te ensino como.. beijo Adri