Quem trabalha em casa como é o meu caso sabe que o telefone é o grande inimigo da produtividade. Sempre tem alguém querendo te vender algo incrível, sempre tem alguém que não sabe usar os dedos e erra o número e sempre tem alguma amiga salvadora que te liga pra papear um pouquinho (o pior de trabalhar em casa é a falta de ter alguém pra conversar, ao menos pra mim, porque passar o dia de pijama de quando em vez eu não vejo problema algum).
Pois agora eu fui descoberta pelos institutos de pesquisa. "Nós somos a empresa de pesquisa tal aqui de São Paulo e gostaríamos de saber se a senhora utiliza automóvel, fio dental, papel higiênico, sabonete com hidratante, serviços bancários, plano de saúde, faca elétrica, alucinógenos ou qualquer outra coisa que a gente queira saber da senhora".
Em função da minha pesquisa no mestrado, quando contei com a gentileza e disponibilidade de algumas mulheres que se dispuseram a passar horas e horas me contando coisas da vida delas, eu mudei minha postura diante de um pedido de pesquisa. Como sei que não é fácil essa vida de 'entrevistadeira', eu costumo participar, desde que eu tenha o direito de não responder a algo que eu não considere apropriado.
Um dia eu fiquei 1h30 respondendo a um questionário do Ibope no portão do prédio e ainda ganhei uma cartilha pra preencher com o meu consumo diário de qualquer item por uma semana. Passei hooooras respondendo, e agora eu entendo a cara de alívio, surpresa e agradecimento da entrevistadora quando aceitei participar.
Ontem, por volta das 19h, recebo um telefonema pra uma pesquisa sobre automóveis. Falei que concordava em participar e a primeira pergunta foi a cidade de onde eu falava: Porto Alegre. Ah, Porto Alegre é minha cidade natal. Eu vou praí na sexta-feira, meu pai mora em Canoas, mas agora faz X anos que eu moro em São Paulo. Eu trabalhava em Porto, trabalhava na rádio tal e rádio tal, mas aí decidi vir tentar a vida aqui em SP. Eu apresentava os programas tais e tais nessas rádios. Também trabalhei no programa tal da TV tal, sabe? E no final de semana vou visitar meus pais. É que devido ao frio do inverno e os problemas de saúde que ele acaba causando nas pessoas mais idosas, preciso ir com mais freqüência visitar os meus pais e blá, blá, blá....
Me senti no salão de cabeleireiro quando fiquei ouvindo sobre a vida de alguém que eu não conheço e a quem eu nem pedi pra me contar nada. Vai ver o cara cansou de ouvir sobre a vida das pessoas e resolveu soltar o verbo no meu ouvido.
Uns 4 minutos depois do conversê-monólogo ele pergunta: A senhora ou alguém que more na sua casa trabalha em algo ligado a publicidade, agência de propaganda?
Sim, eu sou publicitária, trabalho como freelancer.
E o desespero se instalou. Ah, mas é só como freelancer, né? Eu preciso consultar a minha supervisora, mas a senhora jura que é só como freelancer, né?
Alguns segundos depois ele muito triste por perder alguém disposto a responder diz que como eu sou uma formadora de opinião (?) eu não poderia participar da pesquisa.
E já é a terceira vez que sou discriminada por ser publicitária. E olha que eu tava a fim de responder.
E se alguém aí quiser fugir de uma pesquisa via fone de forma polida, diga que é publicitário que você já não vai mais servir pra coisa nenhuma.
No final do telefonema ele ainda pergunta se eu conheço alguém que não seja dessa área e que possa participar da pesquisa. E eu, maldosa
Ah, que pena, tenho mais de uma dúzia de amigas que iriam adorar participar. Pena que são todas publicitárias...