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quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A moeda e a chaleira

Na minha casa, a chaleira tem uma moeda de 5 centavos dentro.
Não é macumba nem simpatia pra ficar rica aos pouquinhos, serve só pra saber quando a água está na temperatura ideal. Quem é chegado num chimarrão sabe a importância que a temperatura da água tem.
E eu regulo o momento exato de apagar a chama de acordo com o rebolado da tal moedinha. Quando ela começa a dar uns espocados isolados feito pipoca no princípio do estouro, ela ainda está fria pra um bom chima. Quando o barulhinho fica próximo da introdução de um sambinha de roda, a água está ideal. Se parecer com a Mangueira ou Beija Flor em plena Sapucaí, esquece que o troço ferveu.

Um parênteses metodológico: o método moedístico foi desenvolvido (ou herdado?) pelo marido, a tipologia da temperatura da água perfeita é de venuss (2005) - ano em que a gente começou a morar juntos. Um parênteses dentro do parênteses: acho que tô estudando demais!

Pois bem, a moedinha já gerou situações, no mínimo, engraçadas. Toda vez que uma nova faxineira adentra nossa cozinha, instaura-se o espanto:
- Dona venuss, alguém enfiou uma moeda dentro da chaleira.
- Acho que fizeram trabalho pra senhora, tem uma moeda dentro da chaleira.
- E eu faço o que com essa moeda que saiu da chaleira?

Aí eu me ponho a explicar toda a eficiência do método, destacando que a tipologia da temperatura da água perfeita só serve para moedas de 5 centavos. Elas me olham com cara de louca, mas entendem que ai delas se tirarem a tal moedinha dali.

Esse assunto só surgiu porque, há pouco, quando fui preparar o meu chá de saquinho, papel, cola, barbante e ervinhas secas, a moeda pela primeira vez em 4 anos caiu dentro da minha xícara. Pode ser um sinal. Acho que vou jogar na mega sena hoje.


UPDATE: Acho que preciso colocar uma moeda de maior valor na chaleira. Não acertei um mísero número.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Auau

Quem é de Porto Alegre conhece uma das maiores atrações gastronômicas dos pagos, depois da picanha mal-passada e do aipim frito da minha sogra: o Cachorro-Quente do Rosário. Quem é daqui ama e é fiel ao Cachorro-Quente do Rosário (e quem não é vai acabar sendo citado como exceção que confirma a regra por esta que vos posta, porque todo mundo é tarado pelo acepipe. Todo mundo mesmo, incluindo os monges tibetanos).

O Cachorro-Quente do Rosário consiste num megapãozinhozão de cachorro quente (ah, bom!) molengo, morno e quase úmido (parece nojento mas é ma-ra-vi-lho-so, juro), cortado no meio, e dentro vem uma tonelada de produtos, o suficiente pra alimentar uma família de etíopes por dois meses e meio, mais ou menos (contando o pãozinhozão daria pra meio ano, frouxo).

O Cachorro-Quente do Rosário vêm com ervilhas. Muitas ervilhas. Bota ervilha nisso. Tanto que sempre pelo menos uma acaba, ao final da refeição, grudada em alguma parte pouco provável do seu corpo, tipo a testa, dentro da orelha, no joelho e por aí vai.

Essa overdose de pontinhos verdes no meio do pão chega nadando num abundante e muito salgado molho de tomate, que, invariavelmente, pinganimim - e em você quando for a sua vez de botar a boca no cachorro - a cada mordida.

Sobre a referida piscina olímpica de molho com as ervilhas-nadadoras está uma camada de queixo ralado. Uma cobertura macia e amarelinha pras nossas queridas amiguinhas verdes cercadas de vermelho por todos os lados. Fica uma delícia, e a combinação de cores fica lindinha, bem gaúcha, oigalê.

Claro que o nosso amigo perro caliente vem com duas salsichas. Enormes o suficiente para nunca, jamais abandonar o pãozinho. Ou seja, nunca vai ser preciso morder só pão com molho, porque as salsichas efetivamente preenchem toda a extensao do pãozinhozão. E se não preencherem, é porque estão desalinhadas e basta empurrar com o dedo indicador pra colocar tudo no lugar. Só não esqueça de lamber o dedo depois da operação de alinhamento de salsichas.

Isso é o que o cachorro-Quente do Rosário tem. Parece simples, mas não é. Nunca nenhum cachorrinho chegou perto desse.

Ah, sim, tem mais uma coisa importantíssima. O meu melhor amigo à mesa - aleluia - não tem batatinha palha. Não é preciso, ao pedir uma tele-entrega, especificar que é SEM batata palha, e não se corre o risco da coisa vir COM a palha da batata palha.

Eu uivo quando ouço falar no Cachorro-Quente do Rosário. Começo a babar hidrofobicamente. Mas tenho que reconhecer que ele tem, sim, como tudo, o seu preço. E o preço é a perda de dignidade completa ao comer. Imposível comer o Cachorro-Quente do Rosário sem se besuntar, melecar, sujar, engordurar. Está fora de cogitação ter um embate com o pãozinhozão molengo recheado de molho pastoso e sair incólume. E mais: nunca pense em comer o Cachorro-Quente do Rosário com namorado novo. Seu relacionamento vai acabar, por mais que vocês se amem.

Quando o querido enxergar você mergulhando o nariz numa pasta ensebada dentro de um papel amarfanhado, quando ele olhar pro seu sorriso cheio de restolhos de pão mole no meio dos dentes, quando ele perceber que tem uma ervilha escalando a sua bochecha, quando seu príncipe notar que grossos pingos de molho caem incessantemente sobre as pernas da sua outrora Aurora e agora Fiona, por mais apaixonado que esteja, vai reconsiderar. E vai te dar um baita chega pra lá.

Só relacionamentos muito estáveis resistem à imagem da pessoa amada pega com a boca na botija, ou melhor, no Cachorro. Se você avançar o sinal e expuser seu querido à cena cedo demais, você vai acabar matando e comendo Cachorro a grito.

(Esse post é uma homenagem singela à venuss, que se encontra de dieta e que tem se alimentado de chá, ora verde, ora branco, mas sempre chato. Pobre venuss).

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Banana com gengibre

Descobri que suco de banana com gengibre é muito bom.

Não tenho a menor idéia como se faz, nem quero saber, porque a única coisa em que realmente acredito do fundo da minha cética, cínica, descrente alma é que não vou jamais aprender a cozinhar.

Não, o suco não é cozido. Falo de cozinhar no sentido amplo. O que envolve preparo de coisas cruas também. Tudo que tem que descascar (incluindo nesse termo o sentido de tirar do pacote) e colocar em outro lugar que não a boca se inclui nessa categoria. Exceto, claro, inserção em orifícios corporais. Falo de panelas, potes, processadores, esse aparato todo, que me parece, aliás, bem mais pornográfico que a história do Mário Gomes com a cenoura (quem tem 40 ou + vai lembrar).

Bom, mas back to the banana juice with ginger: dá pra tomar lá no Supremo, uma dissidência do Ocidente. O Supremo fica na Santo Antônio, quase Osvaldo, Porto Alegre, RS.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Gasta borralheira

Não me importo de admitir: por anos tomei Nescafé aos litros e até gostava. Mas no fim do mestrado, um café passado daqueles que parecem tintura de tão fortes tem o seu valor, como bem lembrou o meu maridão. E gentilmente resgatou a cafeteira que estava lááá no fundão do armário da cozinha. Perto de inutilidades como uma frigideira Bom Apetite (ou será que isso é panela? Ou caçarola? Sei lá, pra mim é tudo OCNI - Objeto de Cozinha Não-Identificado) , uma coisa muito estranha que minha mãe diz que é pra cozinhar vegetais no vapor e uma coisa que acho que é uma forma de bolo.
Cafeteira sobre a pia, pó de café comprado, e aí o querido me dá a aula de preparo de café em cafeteira.
Foi ótimo, e ele foi superdidático. Adorei principalmente a parte de abrir o pacote de café em pó embalado a vácuo (eu nunca tinha presenciado o fenômeno. Faz até psssst quando o ar entra, né?).
Entendi tudo. Ou achei que tinha. E meu mestre-barista saiu pra trabalhar. Ficamos eu e a cafeteira a funcionar.
Claro que daí pra frente deu tudo errado. Acabou a água e o troço ficou fazendo barulhos estranhos - gluks, gluks, gluks. Tive medo duma explosão (quando eu era criança uma panela de pressão com feijão preto explodiu na nossa cozinha. Ninguém se machucou, mas a mancha preta no teto impressionou que foi uma barbaridade. Fiquei meses mostrando aquilo pras amigas enquanto falava do perigo que as panelas de pressão representavam pra gente).
Gluks, gluks, gluks - a cafeteira continuava que parecia minha gata quando tá prestes a vomitar uma bola de pêlo melecada com Whiskas semi-digerido.
Desliguei a cafeteira, pra evitar problemas.
Peguei a jarra pra me servir. Mas ninguém tinha me dito que tinha que tirar aquele porta-coador de cima. Claro, qualquer anta se antenaria disso. Mas eu não. Afinal, não sou uma anta qualquer.
Eu faço mestrado em comunicação, não em culinária. Eu sei quem foi Bakhtin, mas o Monopol é um ilustre desconhecido. Sei de rizomas e bulbos nos termos do Deleuze, mas vade retro, aipim e beterraba.
Resultado: pó de café molhado na pia toda, no fogão, no chão, na minha mão, na estante. Uma meleca espraiada por tudo.
Mas que p... de borra, pensei eu, agora no papel, literalmente, de gasta borralheira (aos quase 43 seria delírio total eu me auto-classificar como gata).
Eca.
Intermináveis e sujos minutos depois, quando terminei de meio que limpar a cozinha emporcalhada, o café da jarra tinha esfriado.
E ainda faltava lavar o porta-coador. E pior: falta lavar o coador.
Que coisa mais cenozóica isso, lavar coador de café.
Deve ter uma lei proibindo a existência de coadores de café que tem que lavar, e obrigando todo mundo a usar coador de papel. Que nem a lei que obriga ao uso de cinto de segurança. Deviam fazer blitze organizadas pra coibir de uma vez o coador lavável. BOPEs invadindo as cozinhas pra combater os energúmenos. Capitães Nascimento diligentes empenhados em erradicar de vez esse mal da nossa sociedade.
Marido querido, avisa pro pessoal do escritório que amanhã vais chegar mais tarde porque a mentecapta da tua esposinha não sabe nem preparar um café passado mas adorou a idéia e não quer mais voltar pro Nescafé.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Hortinha cabeluda

Aqui em casa a gente sempre gostou de encarar as panelas. Pra preparar e pra comer também, sem dúvida. Montamos uma hortinha na sacada que faz parte do ritual cozinha. Antes de preparar qualquer coisa, a gente dá uma voltinha pra colher os temperos fresquinhos. Me sinto uma Nigella tupiniquim. Acontece que este ritual tem tomado muito o nosso tempo ultimamente. Isso porque a temporada de pêlos voltou. Quem tem gato sabe o quanto o calor faz com que os felinos percam mais pêlos. E eu não posso fazer nada se a Lisbela gosta tanto da sacada quanto as plantinhas. A não ser ficar despelando as folhas de manjericão, manjerona, sálvia, alecrim... E como eu não pretendo me desfazer da gata nem da horta, a gente tem cuidado bastante pra não servir uma massa aos 4 mil pêlos. Dá uma olhada na combinação fatal:


quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Cui-dado que eu mordo

Pra compensar o excesso de açúcar do post anterior, resolvi comentar um dos pratos típicos do Equador. É o Cui. Porquinho da índia. Assadinho inteiro, com orelhinhas, olhinhos, unhinhas. Não sei dizer como prepara, mas duvido que aqui alguém queira saber mesmo. Mas confesso: eu comi cui. Roi até os ossinhos. Só não fiz o que um equatoriano sugeriu, que foi comer também o cerebrinho do animal.
Cui é delicioso.
Coitadinho do cui.
Importante: essa foto não é minha. Aliás, dá pra ver de saída que é um rapaz, né? Digo, o da esquerda, porque na direita está o infeliz cui. Como a minha foto da degustação não está boa, peguei esta na internet, do blog http://calvinarch.blogspot.com/

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Minha especialidade

A venuss é uma cozinheira de mão cheia. Cheiaça. Ela adora cozinhar, cozinha com prazer, vive às voltas com quitutes, sai pra comprar ingredientes complicados, anota receitas, essas coisas todas.
Venuss e eu temos muitas coisas em comum (senão a gente não fazia um blog juntas).
Mas a questão culinária definitivamente não é uma delas.
Eu tenho sérios problemas com a cozinha.
Começa que não lembro bem onde fica, porque é um lugar que freqüento muito pouco.
Tenho panelas que ganhei quando casei, há 11 anos, e ainda estão com etiqueta do preço.
E tenho sérias dúvidas sobre quando exatamente a água ferve (preciso lembrar de comprar um termômetro que meça temperaturas de 80 graus pra cima).
Durmo quando alguém me descreve como preparou um prato (mas como minha sogra adora me descrever em detalhes o preparo de milhões de pratos, e adoro as coisas que ela cozinha e pretendo me alimentar da comida dela por muuuuito tempo, desenvolvi a habilidade de dormir de olhos abertos enquanto volta e meia murmuro coisas como "é mesmo?", "ahannnn..." e "interessante". Assim a sogra fica feliz com meu interesse e eu, bem-alimentada).
Mas, veja você, eu sei preparar algumas coisas. Chá. Salsicha. Pipoca de microondas. Miojo. Maçã sem casca. E tem gente que nem isso sabe - ainda tô tentando encontrar, mas tenho certeza que existe.
Mas tem mais: apesar da minha incompetência culinária absoluta, vou apresentar um prato. Uma maravilha culinária. Uma delícia. A pièce de resistance do meu menu.

Pene tricolore ao molho branco de atum
E aqui vai a receita (céus, nunca pensei que seria capaz, euzinha, de dar um receita!)

Ingredientes: um pacote de meio quilo de massa Barilla penne tricolore (pode ser monocolore também, mas o tricolore fica tri-bonito). Uma lata de creme de leite (prefiro as da Nestlé que têm pratos salgados no rótulo, porque aquelas que têm imagens de morango ou outras coisas doces me dão sempre a impressão de inadequação ao preparo de qualquer prato salgado). Uma lata de atum em água e sal. Água. Sal. Duas panelas. Um fogão. Uma travessa. Alguma coisa verde.

Cozinhe a massa. Tem que ser com água, e numa panela (tô dando a receita partindo da premissa de que há outras criaturas com know how culinário similar ao meu e que, por alguma razão esquisita, pra não dizer por uma deturpação da mente, resolveram ler um post com uma receita).
Numa outra panela, misture e aqueça o creme de leite com o atum (do qual você tirou aquela aguinha antes), mexendo sempre. Atenção: se não mexer, o troço cria umas imensas bolhas que explodem fazendo um som de lava de vulcão - tipo BLOOOOOORPH -, lançando gotas ardentes dignas da erupção do Vesúvio sobre sua pele.
Despeje a lava, digo, o molho sobre a massa.
Coloque qualquer coisa verdinha no meio pra ficar bonitinho. Melhor não usar um bonequinho do Shrek nem um marcianinho de plástico - prefira algo mais comestível.

Pronto, agora esqueça o regime e coma à vontade.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Bariloche / Barriloche

Ah-ah, babushka, babushka, babushka, ya-ya...
Do mesmo jeito que o Wiz do comercial do Yázigi de mil anos atrás, o grande sucesso da Kate Bush provavelmente só é lembrado por quem já virou a curva dos inta pros enta.
Mas pulando uma geração e passando da vovó pra mamãe russa, os chocolates Mamushka de Bariloche estão mais perto de todos, ao menos em matéria de tempo.
Tanto que a enviada especial de Calçolas em Bariloche, a mamãe aqui, se empanturrou de Mamushka na semana passada. E agora defendo com veemência que, pelo seu potencial engordante, a cidade da alta patagônia argentina passe a se chamar de Barriloche.Não há como passar por lá sem sair rolando, virada num barril.

venuss Benta

Ontem me aventurei na cozinha. Descobri uns blogs com umas receitas incríveis e resolvi encarar um dos meus maiores medos culinários: fazer quiche. Eu adoro quiche, e sempre tive medo de fazer pq, se saisse ruim, eu ficaria extremamente decepcionada. Mas aí vi essa receita de quiche de espinafre com cogumelos do delicioso blog da AGDÁ e resolvi colocar a mão na massa, ou melhor, no espinafre. Fiquei umas 2 horas lavando espinafre no sábado.

Eu tinha pensado em produzir uma foto bonitinha, como no blog da AGDÁ, mas como sou lenta na cozinha, acho que o almoço ficou pronto lá pelas 14h30 e a gente tava morrendo de fome. Daí que eu tive exatos 30 segundos pra bater a foto antes da quiche ser esfaqueada. Sem luz especial, sem cenário de almoço feliz e bonito, sem nada.

Ficou uma delícia. A massa é de uma crocância que vcs não fazem idéia. Vou passar mais alguns sábados lavando espinafre.